Você foi uma boa mochila, apesar da alça ruim

25 de setembro de 2017
Desde março desse ano faço o curso técnico de modelagem do vestuário. Um curso que, olha só, te ensina a transformar a ideia, o rascunho, o design em uma roupa de verdade, usável, que sirva. E, para conseguir fazer aquele rabisco de saia ou vestido ou calça ou qualquer coisa imaginável se transformar em partes de tecido que mais tarde serão costuradas e vendidas na loja ou site, é necessário planificar tudo no papel. Haja papel. Haja papel e réguas para fazer o traço certo com as devidas margens de costura.

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Semana passada finalmente comprei a régua-de-quadril, uma régua que serve para desenhar qualquer curva mais alongada do nosso corpo (tipo quadril, rs). Me desloquei -- e aqui vai um adendo: até quando a norma portuguesa vai dizer que é errado colocar o pronome 'me' no início de frase? Ficam tirando a trema, tão bonitinha, e esquecem do mais urgente -- enfim, me desloquei até Novo Hamburgo, cidade aqui do lado que conheço só de nome mas nunca desbravei, e andei pelo desconhecido centro. Confundi o nome de uma rua principal, pedi informação prum guarda de escola particular e ele me respondeu com extrema má vontade, como se eu fosse a pessoa mais burra do universo por trocar o nome de duas ruas paralelas. De qualquer forma cheguei no lugar que eu queria, comprei a bendita régua e voltei pra casa vivona.

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Foi difícil demais acordar hoje. Ontem eu e namoradão ficamos até uma da manhã vendo The Handmaid's Tale (muito bom!!!! horrível, mas maravilhoso!!!), depois tomei banho, mas tava sem o secador e me obriguei a enrolar um pouco pra dormir para o cabelo secar. Pela manhã não tinha despertador que fizesse eu despertar de fato, mas uma xícara de café trouxe de volta a minha dignidade, pelo menos em parte. Entre o dilema de fica zumbi em casa ou ficar zumbi em aula, optei por ser boa aluna e ir pra aula.

O problema é que eu deveria ter sido uma péssima aluna, pelo menos hoje.

Coloquei a mochila nas costas e comecei a descer a rua da minha casa, a rua que eu sempre andei de boas na lagoa a vida inteira, a rua que desemboca próximo ao trem. O dia tava bonito. O óculos de sol estava pendurado na camiseta pronto para ser usado. Um cara numa moto para adiante, começa a xingar a moto, eu sigo meu caminho. Esse mesmo cara se vira para mim, insinua ter arma (se tinha, nunca vou saber) e manda eu entregar a mochila. Agora, pensando bem, não consigo lembrar do momento que eu tiro a mochila das costas. Geralmente demoro porque é pesada, ou porque o braço tranca na alça, ou porque pende mais de um lado que outro, ou me enrosco com ela na roupa. Mas hoje a mochila saiu de mim num piscar, e nesse mesmo piscar o cara sumiu com ela nas costas na mesma moto que até antes ele fingia xingar.

As réguas de modelagem, todas com meu nome, se foram, talvez pra nunca mais, nas costas de um desconhecido. A pasta com todos meus trabalhos orgulhosamente catalogados fazia companhia às meninas de acrílico. Meu celular, que nem quando novo tinha muito valor, se foi sem nem conseguir me dar adeus. As chaves de casa, agora inúteis sem ter o que abrir, foram pro mesmo caminho sem volta. Até a escova de dentes, até o hidratante de rosto. Só fiquei com o óculos de sol preso na camiseta, mas aí o dia já tinha ficado nublado pra mim.

Felizmente eu não tinha nenhum documento na mochila, felizmente não fiquei machucada, felizmente réguas e papel e pasta e escova de dentes podem ser comprados novamente. Consigo sobreviver sem celular, já passei da adolescência. Infelizmente agora tenho receio de andar na rua da minha casa.
  1. Poxa, que triste. Eu comecei a ler achando que ia ser uma história engraçada sobre o fim da vida de sua mochila, que podia ter se descosturado no meio do caminho, mas foi bem mais tenso... Eu faço Design de Moda e tenho o maior apego às minhas réguas e minha pasta (que tá mais pra caixa) de modelagens, acho que choraria muito se perdesse as duas (as réguas pq foram caras e as modelagens pq eu guardo com tanto carinho tudo o que fiz...). Mas também já fui assaltada algumas vezes e sei que consigo sobreviver sem essas coisas, tipo celular e documentos da carteira, mesmo que o chaveiro que tinha na minha chave de casa tivesse sido um presente. Enfim, feliz que não aconteceu nada sério com você, que mesmo que o cara não estivesse mesmo armado, a sua reação não foi confrontá-lo (o que já pensei em fazer uma vez, mas acabei desistindo) e que as coisas levadas são substituíveis. Agora fica aquela tristeza misturada com paranoia na hora de sair de casa sozinha (não ando mais à pé como andava antes). /Fimdaredação

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